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Alfaiate de Mim

O dia em que decidi tornar-me alfaiate de mim mesmo.

Escaparam-me por entre os pensamentos, linha e agulha, que palpitantes dançavam em minha inquietação por não encontrar malha, esse tecido tão eficaz, quente e abastecido em textura.

Mas não me faltam os espelhos, que nos mostram o reflexo dos bastidores de nós mesmos…

Fora um dia feliz, agora sou alfaiate.
Tenho de pensar ao milímetro cada troço de pele que vou decorar, cada volume que devo ou não embrulhar.

Mas continua-me a faltar a eterna lã do meu estado de ansiedade. Sem tal material, não conseguirei construir castelo de retalhos, fortificação estética de linhares, botões que não querem ser descobertos, por mãos que não querem descobrir…o que existe para lá da inércia do não navegar às escondidas.

É este então o estado da marca diária, classificaria de “Arrombo de ecos no país de gente surda”.

Mas de certeza que o abreviariam, são muitas palavras para apenas uma sensação.
Se fosse apenas alfaiate de sensações, não teria que destruir-me de traços contínuos. Prefiro os fragmentos, aqueles que sabem nadar no meio de nós, e nos colam às coisas, nos prendem ao cais dos sonhos, nos levam e trazem….sem ser preciso comprar bilhete.

Mas sou alfaiate de mim mesmo, e assim permanecerei incapaz de me vestir.

 

 

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